<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273</id><updated>2011-04-21T20:11:23.599-03:00</updated><title type='text'>Pisca, Lavoisier!</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>14</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-8976482934674140544</id><published>2008-04-23T05:09:00.002-03:00</published><updated>2008-04-23T05:10:52.689-03:00</updated><title type='text'>Horizonte laranja</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Longe de olhos e ouvidos, fecho as portas, cubro as janelas, viro os espelhos, apago as luzes. O tempo falha, os relógios param e os calendários voam; as horas são longas, e os anos, curtos. Perco a conta dos dias enquanto me desfaço lentamente no vão profundo das lembranças alheias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pessoa se levanta e sai à rua, ninguém a reconhece, ela compra o jornal mesmo assim. Faz calor, mas não muito. Uma sirene de ambulância demora a passar ao longe.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-8976482934674140544?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/8976482934674140544/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=8976482934674140544&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/8976482934674140544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/8976482934674140544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2008/04/horizonte-laranja.html' title='Horizonte laranja'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-1401944466911062171</id><published>2007-11-27T04:27:00.000-02:00</published><updated>2007-12-07T11:31:20.348-02:00</updated><title type='text'>Percepção e não-percepção</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;I&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Contam de uma senhora que perdeu seu espelho e não mais se reconheceu. Se ao menos tivesse consigo uma foto, preferencialmente de seus dias de moça! Seria jovem outra vez, e com sorte, do melhor ângulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;II&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Num ônibus abarrotado, a caminho do centro, um funcionário público acorda de seus sonhos recorrentes de castelos e donzelas e volta ao purgatório diário de lotações e papéis. Às vezes se pergunta se o trabalho maçante na repartição não é o pesadelo recorrente de seu cotidiano de heróico cavaleiro. Pensa reconhecer no cobrador do 362 o ferreiro da aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Entrando na galeria de arte, o mapa trazia em grande destaque, sem nenhuma indicação adicional, mas obviamente com precisão: "VOCÊ ESTÁ AÍ." Outros mapas idênticos do lado de dentro também o localizavam sem erro, de onde quer que para eles olhasse. Acossado pelo pós-modernismo, bateu em retirada, mas logo percebeu que não havia mais fuga possível; mesmo na segurança de sua casa, estava agora permanentemente sitiado à distância pelos panópticos garrafais, o que destruiu primeiro seu casamento, e depois sua sanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;IV&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Na sela de sua montaria, após longa jornada, um cavaleiro errante acorda de seus sonhos recorrentes de pacífica estabilidade e volta à tensão constante de enfrentar bestas devoradoras de gente e dragões que cospem fogo. Às vezes se pergunta se o perigoso resgate de gordas senhoras em troca de estadia e alimentação não é o pesadelo recorrente de seu cotidiano de tranqüilo burocrata. Pensa reconhecer na criatura de três cabeças o tesoureiro do reino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;V&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A menina segurou o braço da avó para que esperasse enquanto juntava algo brilhante do chão. Era um espelhinho sujo e trincado; notou que as marcas adicionadas ao seu reflexo imitavam muito vagamente as rugas da nona. Pobre criança esperta, tão cedo assombrada pelo espectro da própria velhice.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-1401944466911062171?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/1401944466911062171/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=1401944466911062171&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/1401944466911062171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/1401944466911062171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/11/percepo-e-no-percepo.html' title='Percepção e não-percepção'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-8942563620805924458</id><published>2007-11-27T01:56:00.000-02:00</published><updated>2007-11-27T01:59:27.641-02:00</updated><title type='text'>A pedrada filosofal</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para Parmênides tudo é pedra, é preto-no-branco, brincadeira de espelhos. Heráclito atira a primeira pedra no rio e desafia seu oposto a buscá-la, e embora esteja certo de que o filósofo que saiu do rio não é o mesmo que nele entrou, não consegue negar que a pedra continua sendo a mesma pedra, apenas agora pedra molhada. Demoram-se muito neste impasse até que Spinoza intervém e anuncia que a pedra, o rio e os gregos são todos a mesma coisa e sempre mudando. Parmênides então nocauteia o holandês com uma pedrada, e Heráclito joga o intrometido no rio.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-8942563620805924458?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/8942563620805924458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=8942563620805924458&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/8942563620805924458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/8942563620805924458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/11/pedrada-filosofal.html' title='A pedrada filosofal'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-2088762444865337566</id><published>2007-08-03T23:00:00.001-03:00</published><updated>2007-08-03T23:55:38.586-03:00</updated><title type='text'>Mitos e lendas, vol. II: "O menestrel do norte"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegou à cidade grande ainda jovem, vindo de longe, tocando melodias que não havia composto, e cantando canções que não havia escrito; pois ali, afinal, quase ninguém compunha e tocava, e quase ninguém escrevia e cantava, e os poucos que o faziam, pouco eram ouvidos. Mas assim que conseguiu a atenção de todos com números emprestados, deixou correr seus próprios versos que lhe escorriam pelas mangas, pelos poros, pelo nariz; e o que era atenção transformou-se em idolatria. A metrópole, uma Hamelin majestosa que aguardava em suspense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantava histórias do povo e histórias de reis, histórias de amor e histórias de guerras, cantava pelos desgraçados, cantava como se pudesse mudar o mundo, cantava como se pudesse mudar a história, conduzir a história, e foi neste pedestal logo o colocaram. A notícia da ascensão do magnífico bardo rapidamente correu o país, e logo todo o mundo conhecido já sabia seu nome; mas a multidão que o seguia dia e noite, acima e abaixo, aparecendo sob sua mesa no desjejum e sobre sua cama no anoitecer, esperando que a cada três passos escapassem dos anéis de seus cabelos novas respostas para os dilemas dos reis e dos homens, transformara o jovem e carismático trovador num cínico e críptico oráculo às avessas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro atraiu a Hamelin cancerígena às águas revoltas, onde o choque levou mais de um dos ratos a chamá-lo de traidor, ironia escancarada numa réplica fulminante, quem acreditaria num rato, afinal? Em seguida cantou outra vez as histórias dos desolados, mas negou-lhes a desgraça; desdenhou os indiferentes que se pretendiam simpatizantes e apontou-lhes os perdedores em fila, chamando-os por belos nomes e transfigurando cada tragédia em compaixão mútua, ainda que não compartilhasse do mesmo tipo de piedade. Indiferença diferente, jogos de palavras, inversões de valores, folião em trajes de lorde, emitindo sentenças em código e verso, divertimento irresponsável, malabarismo de forma e caráter que se seguiria deste dia em diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parcialmente escondido no alto da torre, ainda correu a vista pela distância, mas partiu antes da chegada dos cavaleiros. Vaga pela noite tamborilando, desafiando as horas, protesto lúdico em dança de roda; e assim o fará mesmo que por vezes o vento, a tempestade e o acaso o açoitem e o façam procurar abrigo, até que a amargura e a escuridão finalmente se tornem mais fortes e o coloquem à porta dos céus, onde ao menos não haverá ninguém esperando respostas impossíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;"It's not dark yet&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;But it's getting there."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-2088762444865337566?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/2088762444865337566/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=2088762444865337566&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/2088762444865337566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/2088762444865337566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/08/o-menestrel-do-norte.html' title='Mitos e lendas, vol. II: &quot;O menestrel do norte&quot;'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-3068909882057627719</id><published>2007-08-02T02:08:00.000-03:00</published><updated>2007-08-03T23:55:16.910-03:00</updated><title type='text'>Mitos e lendas, vol. I: "A cruz de Osterberg"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pobre dínamo ensangüentado, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;I feel alright&lt;/span&gt; apesar da auto-flagelação e da reprovação dos filisteus, ou seria por causa de?, no confronto, na provocação, na negação da negação, no vivo sangue que escorre e reflete as poucas luzes, absorve todas as luzes, faz brilhar impossivelmente este pobre dínamo ensangüentado que se move mais e mais depressa, perde o controle das pernas, dobra os joelhos desafiando a anatomia até que finalmente implode sob si próprio, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;I feel alright, I feel alright!&lt;/span&gt;, e então os ruídos cessam, a escuridão afrouxa, o pobre dínamo ensangüentado e esgotado é arrastado para fora com a ajuda de uns poucos companheiros enquanto os filisteus se alternam entre a raiva e a incertidão, e não percebem que acabaram de testemunhar um mártir, um salvador, um escolhido, um messias, um gênio, um louco que lhes trazia uma verdade, uma destas raridades que os homens eternamente procuram mas raramente encontram, e que é próprio dos filisteus pensar já tê-las quando na verdade não poderiam estar mais longe. Mas amanhã as chagas já estarão curadas, e novas serão abertas, porque é assim que estas coisas são, e afinal haverá quem compreenda tudo aquilo, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;I feel alright&lt;/span&gt;, o sangue, o ruído, a dança de São Vito, e haverá quem reconheça nisto a verdade que arrebenta as paredes, e então estes também se sentirão bem, e haverá entendimento, e tudo estará em ordem e tudo correrá melhor, ainda que em meio ao sangue e ao suor, pois é assim que estas coisas são.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Los Angeles, 1970.)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-3068909882057627719?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/3068909882057627719/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=3068909882057627719&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/3068909882057627719'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/3068909882057627719'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/08/cruz-de-osterberg.html' title='Mitos e lendas, vol. I: &quot;A cruz de Osterberg&quot;'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-3762329308309970630</id><published>2007-05-22T04:04:00.000-03:00</published><updated>2007-05-22T04:13:55.865-03:00</updated><title type='text'>Quais últimas palavras</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;I&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Champs-Élysée. Fim de tarde. Um casal de meia-idade sentado à mesa de um elegante café. Não são franceses, são americanos. Estão lá a passeio, como fazem todos os anos. Ambos sorriem muito, não por vontade, mas por costume. Ela descobriu que ele tem um caso com a chefe; ele sabe que ela dá pra qualquer um. Ambos colocaram veneno no café do outro. Ou pensam que colocaram, ambos remexeram os pertences do outro no hotel antes de sair e trocaram o veneno alheio por um placebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;II&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Marina de Monte Carlo. Alta madrugada. Um excêntrico milionário russo radicado na Grã-Bretanha promove uma festança em seu iate, que está prestes a deixar o cais para que a festa possa se transformar em orgia sem ser importunada pelos paparazzi. Mal sabe ele que as modelos e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;escorts&lt;/span&gt; contratadas estão a serviço de um tablóide inglês, trazendo microcâmeras escondidas nos implantes de silicone. Ao amanhecer, as bancas londrinas já estamparão detalhes sobre costumes e obturações tanto seus quanto de seus colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Pirâmides de Gizé. Três da tarde. Um grupo de turistas japoneses tira fotos das pirâmides, do deserto, do sol, do guia, dos outros turistas japoneses. O guia já conduziu muitos grupos de turistas japoneses que tiram foto de tudo, mas isso não o deixa menos incomodado, pelo contrário. Quando um dos turistas japoneses lhe pede para que pose como os egípcios dos hieróglifos ("e dos videoclipes"), não é mais possível agüentar: ferido tanto no orgulho cívico quanto no pessoal, ele perde o controle e grita, chora, se desespera, agita os braços freneticamente na direção dos turistas japoneses que para ele são todos iguais, todos superficiais com suas câmeras e bonés e camisas e rostos todos iguais. Os turistas japoneses então todos dizem "oh!" e tiram mais fotos do guia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;IV&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Avenida Paulista. Por volta do meio-dia. Os bancos e escritórios despejam o mar de engravatados no sertão de concreto dos imigrantes que habitam as calçadas. A caminho do carrinho que vende sanduíches de calabresa, alguns dos supracitados cidadãos deixam esmolas para um decrépito aleijado. Não percebem se tratar de Dom Sebastião, legítimo herdeiro e abençoado salvador do império português, ex-colônias possivelmente incluídas. Ao retornar do almoço ainda irão reclamar que o país não vai para a frente, além de culpar o stress pela indigestão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;V&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Champs-Élysée. Fim de tarde, um ano depois. O mesmo casal americano de meia-idade sentado à mesa do mesmo elegante café. Ambos sobreviveram a várias tentativas de assassinato por parte do outro. Desta vez, cada um envenenou o próprio café. Ou pensam que envenenaram, ambos remexeram os pertences do outro no hotel antes de sair e trocaram o veneno alheio por um placebo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-3762329308309970630?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/3762329308309970630/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=3762329308309970630&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/3762329308309970630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/3762329308309970630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/05/quais-ltimas-palavras.html' title='Quais últimas palavras'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-3702815897957982883</id><published>2007-05-15T22:48:00.000-03:00</published><updated>2007-05-15T22:51:56.112-03:00</updated><title type='text'>A banda</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Às vezes, até aqueles que sempre caminham apressados pensam ter ouvido música na distância, no vento, na poeira que insiste em entrar nos olhos. Pensam ter visto música, ter sentido música. Param por um segundo e deixam que o quase-silêncio toque as notas que trazem de volta a leveza dos movimentos. Mas após esta eternidade esfregam a poeira dos olhos com a manga da camisa e seguem adiante com seu passo apressado. As lágrimas, apenas utilitárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que, muito raramente, um ou outro destes ocupados indivíduos esbarra na banda, e sabe-se que durante estes últimos e agonizantes instantes em que são pisoteadas pelos trompetistas, pratistas e, nos casos mais graves, até pelo tocador de tuba, muitas das vítimas deixam escapar um sorriso incólume, o que faz com que a banda acelere o compasso e as testemunhas o passo. As lágrimas, pequenas dúvidas com gosto de sal.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-3702815897957982883?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/3702815897957982883/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=3702815897957982883&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/3702815897957982883'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/3702815897957982883'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/05/banda.html' title='A banda'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-5832151356828014957</id><published>2007-04-10T02:18:00.000-03:00</published><updated>2007-04-10T04:16:41.498-03:00</updated><title type='text'>O príncipe</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era uma vez um príncipe que construiu um castelo de palavras numa planície gélida; durante os eternos invernos inclementes, prosa e poesia o protegiam da intempérie, e nas manhãs e meio-dias em que o frio arrefecia, as varandas davam vista a um deserto branco e vasto. Mas os castelos de palavras só precisam de silêncio para cair, e assim o príncipe vivia em eterno terror, imaginando se este seria o ano em que as caravanas deixariam de passar, condenando seu reduto à lenta e certa erosão sob as tempestades de neve que afugentam os viventes para, semanas, meses ou anos depois, quando a primeira coluna cedesse, transformar-se finalmente num mausoléu de ruínas congeladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, sempre que um viajante aparecia - coisa que não acontecia com freqüência, já que não só seus domínios ficavam muito longe de qualquer cidade ou vila, como também eram de difícil acesso mesmo para aqueles que conheciam a localização - sempre que um peregrino aparecia, o príncipe aproveitava a oportunidade para repassar seu repertório de palavras, a fim de reafirmar a confiabilidade da fortaleza e impressionar os visitantes para que estes sempre levassem boas notícias às caravanas mercantes que abasteciam o castelo. Não de víveres, é claro, já que o castelo era, como é de se esperar de um castelo, auto-suficiente neste respeito; e nem de artigos de luxo, já que o príncipe, apesar de considerado excêntrico, era na verdade relativamente modesto. O que era necessário, e mesmo indispensável, eram as longas conversas com os mercantes, que, tendo visitado o país e visto de tudo um pouco, traziam sempre novidades a partir das quais o príncipe construiria novas histórias, fosse para expandir uma ala quando possível, fosse para consertar as muralhas quando preciso - o que pode-se e deve-se dizer como sendo "quase sempre".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nem mesmo os viajados mercantes das caravanas da região poderiam sustentar o castelo eternamente, já que um dia as suas histórias também se esgotariam; e além disso, a troca de anedotas e episódios não lhes parecia vantajosa, já que, apesar da generosidade e hospitalidade do príncipe, eles passaram a se perguntar como e porque é que eles, que tinham que abrir caminho em meio às nevascas por dias até chegarem ao castelo, continuavam vendendo o que eles viam como "velharias de pouco valor", enquanto o príncipe, que "nada fazia", ostentava seu majestoso domínio como "um pavão se exibindo num galinheiro". Assim sendo, num certo ano as caravanas simplesmente decidiram que não fariam mais a rota passando por ali, tomando no lugar um outro traçado que evitava a região mais fria; e com o fim da rota comercial da planície, pouco a pouco os peregrinos também deixaram de trilhar o caminho do castelo. Logo não havia mais quem tivesse notícia do príncipe, e nem quem levasse notícias do mundo até ele; até que, após algum tempo, tanto o príncipe quanto o castelo foram simplesmente esquecidos, não por maldade, mas por esquecimento, mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim continuaram as coisas por anos e anos e anos, até que um intrépido explorador, que havia ouvido falar no lendário castelo de palavras ao visitar um vilarejo da região quando ainda era criança, decidiu se aventurar além da fronteira, atravessando a floresta e entrando no deserto de gelo em busca daquela construção magnífica. Seus amigos tentaram impedi-lo, dizendo: "ninguém sabe onde o castelo ficava, você se perderá e morrerá no frio!" Sua esposa tentou proibi-lo, dizendo: "você não pode me abandonar, você se perderá e morrerá no frio!" E seu companheiro de muitas expedições, que não era tão intrépido quanto o intrépido explorador, tentou dissuadi-lo, dizendo: "eu não quero me perder e morrer no frio!" Mas o aventureiro não pôde ser impedido, nem proibido, nem dissuadido; e, quando ele finalmente partiu sozinho rumo à infinita planície congelada, seus ex-amigos, sua ex-esposa e seu ex-companheiro concordaram que ele havia enlouquecido, e pensaram: "que se perca e morra no frio".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje, o explorador não voltou. Não se sabe ao certo o que aconteceu com ele, embora todos concordem em concordar que ele simplesmente se perdeu e morreu no frio, como era de se esperar; alguns até imaginam, embora poucos admitam, que talvez ele tenha até mesmo encontrado as ruínas do castelo, mas provavelmete se perdeu e morreu de frio antes que conseguisse voltar. No entanto, ainda há as raras almas que acreditam - embora não admitam, sob risco de serem tachados de loucos - que o explorador não só encontrou o castelo, como o encontrou ainda de pé, e que, junto com o príncipe, o está restaurando com relatos de suas extensas e magníficas viagens mundo afora, e que um dia não só este destemido aventureiro retornará para contar sua mais extraordinária história, como também que o castelo do príncipe se tornará tão vasto e grandioso que será possível vê-lo de qualquer lugar do país, e que então viajantes de todas as regiões visitarão o príncipe e aprenderão, também, a construir suas casinhas de palavras.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-5832151356828014957?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/5832151356828014957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=5832151356828014957&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/5832151356828014957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/5832151356828014957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/04/o-prncipe.html' title='O príncipe'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-5743304343541416022</id><published>2007-03-02T17:57:00.000-03:00</published><updated>2007-03-02T17:59:12.854-03:00</updated><title type='text'>Lei da sopa, vol. II: "A caixinha de música"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;(publicado originalmente em janeiro de 2005)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou em casa ainda cambaleando de felicidade depois do primeiro beijo. Saltitou até o quarto e pegou a caixinha de música. Pulou na cama, deitou-se de bruços, colocou a caixinha no travesseiro, deu corda e abriu devagar a tampinha. Mas, ao contrário do que esperava, não ouviu a musiquinha de que tanto gostava. "E eu, como é que fico?", disse uma voz fina de dentro da caixinha. Mal a última palavra foi dita, a menina fechou rapidamente a tampa, assustada. Um "ai!" abafado ainda pôde ser ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou parada, boquiaberta, por alguns segundos. Olhou em volta, mas não havia mais ninguém no quarto. Foi até a porta e inclinou-se para o corredor. Estava vazio. Fechou a porta e atravessou o quarto na direção da janela. Também não havia ninguém do lado de fora. Fechou as cortinas e pulou de volta na cama. Pegou a caixinha de música nas mãos e a levou lentamente até perto do ouvido. Não ouviu nada, então sacudiu-a. Além dos esperados chacoalhares dos anéis e brincos ali guardados, ouviu também um grito agudo. Jogou a caixinha no travesseiro e gritou também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após um minuto a mãe bateu à porta. Perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu que sim. Esperou mais um minuto até ouvir a mãe se afastar antes de fazer alguma coisa. Decidiu, então, descobrir do que se tratava aquilo tudo. Encheu-se de coragem e abriu a caixinha de música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Você não pode fazer isso comigo!", disse a pequena bailarina de porcelana da caixinha, num misto de raiva e choro. "Nem isso, muito menos... muito menos aquilo!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina nunca vira a bailarina fazer outra coisa a não ser girar sobre seu próprio eixo enquanto a musiquinha tocava, e tinha a caixinha de música desde quando era muito bebezinha. Nunca imaginou que aquela pecinha de porcelana tivesse vida, muito menos que falasse, embora já tivesse considerado que tivesse sentimentos. Tentou contemporizar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu não sabia..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Você não sabe nada! Pensa que ele gosta de você?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também nunca passara por sua cabeça que a bailarina pudesse conhecer o que se passava fora não só da caixinha, como do quarto e da casa. Aparentemente, não sabia nada mesmo. A voz fina repetiu a pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Pensa que ele gosta de você?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu não... eu acho... eu acho que sim..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Você não sabe nada! Ele é igual a todos os outros."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Hã?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"É igual a todos os outros!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Os outros... os outros o quê?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Os outros homens!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Os outros... todos os outros?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Todos! Não se engane. Eles só querem uma coisa."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Hã?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eles só querem uma coisa!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Só uma coisa?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Só uma coisa!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Só um beijo?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não! Querem fazer coisas horríveis com você. São uns brutos."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mas..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não quero ouvir! Você não pode fazer isso comigo. Você me traiu! Você sabe que eu te amo!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Hã?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu te amo!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina, que já estava preocupada com a situação, prendeu a respiração por um segundo, olhando para a pequena bailarina. Então, com um gesto brusco, tampou a caixinha, ofegando violentamente. Respirava com tanta dificuldade que nem ouviu um novo "ai!" abafado. Não estava entendendo nada. Esperou alguns minutos até se acalmar, e então foi à procura da mãe para fazer-lhe uma pergunta que, esperava, esclareceria sua visão. Encontrou-a na cozinha, lavando a louça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mãe, quando uma menina diz que ama outra menina, é normal?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um prato caiu e estraçalhou-se dentro da pia. O pai, sentado numa poltrona na sala ao lado, lendo o jornal, engasgou com o cachimbo, mas preferiu não se meter. Continuou a leitura, embora com um ouvido na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Filha..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia o que dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não é normal não, né, mãe?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe respirou aliviada. "Não é não, filha." A menina sorriu e correu de volta para o quarto. O pai continuou lendo o jornal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando no quarto, abriu a caixinha de música. A bailarina estava aos prantos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Isso já é demais! Conservadorismo! Preconceito! Discriminação!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina apenas sorriu e tampou de volta a caixinha, para um novo "ai!". Subiu de pé na cama e a guardou no armário, o mais alto que conseguiu. Deitou-se e ficou sonhando com o namoradinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, em outro lugar do bairro, ele também pensava nela, embora não estivesse exatamente sonhando.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-5743304343541416022?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/5743304343541416022/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=5743304343541416022&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/5743304343541416022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/5743304343541416022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/03/lei-da-sopa-vol-ii-caixinha-de-msica.html' title='Lei da sopa, vol. II: &quot;A caixinha de música&quot;'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-7343184379977507824</id><published>2007-02-16T00:26:00.000-02:00</published><updated>2007-02-16T23:51:33.576-02:00</updated><title type='text'>Aplastado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Terminou a cerveja e percebeu o sujeito à sua esquerda no balcão olhando torto. Não era dali, é claro que iriam olhar torto. Achou ter visto o sujeito cerrar o punho, não dava para saber, não estava olhando para o sujeito, o sujeito é quem olhava. Na dúvida, não esperou para saber e nem pensou em perguntar. Antes mesmo de olhar de volta arrebentou o queixo do sujeito, uma só e mandou direto pro chão. Não gosto de confusão, mas tem gente que provoca, mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí não tinha mais volta. Outros dois se levantaram nos bancos mais à esquerda, um puxou um canivete. Tudo muito rápido, antes que o barman percebesse a confusão ou recolhesse a garrafa vazia o gargalo quebrado já dava conta dos dois, que recuaram tão depressa quanto levantaram. Esses caras, não valem nada, não agüentam dois minutos, cadê o próximo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou para o próximo aparecer, grandalhão, tatuagem pra todo lado, de meter medo, mas meter medo em quem, nem precisou da garrafa quebrada. Duas ou três porradas bem dadas no meio do estômago e o grandalhão já estava grogue, mais rápido, cara, mais rápido, todo esse tamanho e lento desse jeito. Só foi rápido pra cair, isso sim, esse bando de mané, pequeno, grande, é tudo mané, querem briga, é? Só tem mané, tudo igual, só tem mané.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso o barman se levanta atrás do balcão, carregando uma escopeta maior que ele. Coitado, tá tremendo mais que vara verde, vai fazer o quê com isso aí, tu não vai atirar não, eu sei que tu não vai, tu é muito banana pra atirar. Mas o barman não é tão banana assim e atira, só que treme tanto que só acerta de raspão e antes que pegue outro cartucho já levou meia dúzia de joelhaços na cabeça. Só precisou de um pra derrubar, mas filho duma puta, essa jaqueta era quase nova, olha agora, cheia de buraco aqui na manga, um monte de sangue, não vai sair tão fácil, puta que o pariu, toma mais um monte pra aprender, seu filho duma puta. Tudo filho da puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que alguém o acertou em cheio nas costelas. Não viu quem foi, nem de onde veio, só sentiu o baque e dobrou para o lado. Mal terminara de se dobrar e tomou outra do outro lado. Caiu para a frente e vai-saber-lá-quantos caíram em cima. Tomou soco, pontapé e cadeirada até se fundir com o chão. O sangue escorrendo pelo canto da boca, preenchendo as narinas, sufocando os sentidos. Pouco a pouco, os ouvidos também parecem encher, e a vista fica turva. Bando de animais, não dá nem pra tomar uma cerveja em paz. Da próxima vez, vou armar um barraco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-7343184379977507824?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/7343184379977507824/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=7343184379977507824&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/7343184379977507824'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/7343184379977507824'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/02/aplastado.html' title='Aplastado'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-117039837797186505</id><published>2007-02-02T04:32:00.000-02:00</published><updated>2007-02-02T09:02:59.646-02:00</updated><title type='text'>Empate técnico</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já andavam pelo cais há alguns minutos, talvez mais. Um dia e quase uma noite já pesavam em cada passo dos dois, mas agora o cansaço pouco importava. Ela sorria meio sem saber porquê, ele não sabia por que não sorria - embora achasse graça nisso, também. Talvez porque houvesse percebido que acompanhava os passos dela, agora o pé direito na frente, agora o pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, iam lado a lado como que sincronizados, e desde que se apercebera disso, se sentia quase obrigado a manter o ritmo, o que, àquela hora e naquelas condições, exigia bastante tanto de sua coordenação quanto de sua concentração. Riu, mas não sorriu. Ela aproveitou o vão aberto no silêncio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Já é tarde pra estarmos por aí, disse ela, sem levantar os olhos do chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ainda é cedo pra estarmos por aí, respondeu ele, também sem erguer a vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deram mais alguns passos sem perder o compasso. Alguém que, de muito longe, os visse caminhando, poderia imaginar que alguém passava em frente a um interminável espelho, a não ser por apenas de um lado haver um sem-fim de veleiros, além de uma ou outra escuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Podíamos parar pra descansar um pouco, disse ela, olhos ainda abaixados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Podíamos continuar andando até o fim, respondeu ele, concentrado nas passadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela mal continha o sorriso, e ele, o riso. Ainda faltava bastante para chegarem ao extremo sul da marina; uma levantada rápida dos olhos, e mal era possível distinguir as lanchas dos catamarãs ao longe, ainda mais para ela, que não sabia o que era um catamarã, só imaginava que não fosse o mesmo que uma lancha. Estavam agora um pouco além da metade do percurso do cais, talvez? "Minhas pernas já não agüentam mais." Nenhum dos dois se atreveu a dar meia-volta para olhar para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tudo bem, se você quiser, paramos um pouco agora, disse ele, displicente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não, por mim está ótimo, vamos até lá e voltamos, disse ela, insistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuaram daí em silêncio. Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, até deixarem para trás as últimas embarcações. Pé direito, pé esquerdo, pé direito, parada completa. À frente, só o mar. Levantaram a cabeça quase ao mesmo tempo, e olharam para trás, para a extensão da caminhada, antes de olharem um para o outro. O cansaço era quase maior que a empatia. Enquanto recuperavam o fôlego, divertiam-se ao tentar falar qualquer coisa e serem impedidos tanto pela própria respiração trôpega quanto pela falta do que dizer. Foi ela quem primeiro juntou três palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Você anda depressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu. Ela riu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-117039837797186505?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/117039837797186505/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=117039837797186505&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/117039837797186505'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/117039837797186505'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/02/empate-tcnico.html' title='Empate técnico'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-117030863237433194</id><published>2007-02-01T03:40:00.000-02:00</published><updated>2007-02-01T03:46:00.470-02:00</updated><title type='text'>Lei da sopa, vol. I: "Atrasado"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;(publicado originalmente em janeiro de 2005)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trancou a porta e chamou o elevador. Enquanto esperava, voltou  duas vezes até a porta para conferir se a havia trancado. Não retornaria a seu  apartamento por algum tempo, embora ainda não soubesse &lt;i&gt;quanto&lt;/i&gt; tempo. Viu  o elevador passar reto, subindo até a cobertura. Remexeu os bolsos à procura do  isqueiro. Destrancou a porta do apartamento e colocou um pé para dentro,  enquanto corria os olhos rapidamente pelo interior da antesala. O ruído do  elevador novamente em movimento chamou sua atenção. Rapidamente tirou o maço de  cigarros do bolso da camisa e o abriu. O isqueiro estava dentro. O elevador  chegou. Ele deu um passo atrás, abriu a porta do elevador e segurou-a com o pé  enquanto trancava novamente a porta do apartamento e recolocava o maço com o  isqueiro no bolso da camisa. Colocou as chaves no bolso direito da calça, deu  mais dois passos atrás e apertou o botão do térreo. Lentamente a porta do  elevador voltou até se fechar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virou-se para a parede oposta à porta, um  espelho que começava na altura da cintura e ia até o teto. Olhou dentro de seus  próprios olhos no reflexo. Distraiu-se a ponto de não perceber que o elevador  parara. Assustou-se quando a porta abriu, mas controlou-se. Levou a mão  suavemente ao cabelo, como se o estivesse arrumando. A bonita jovem que entrava  sequer percebeu que o havia assustado. Sorriu para ele através do espelho e  cumprimentou-o, embora não o conhecesse. Ele virou-se, abaixou a cabeça e  respondeu nervosamente, ainda que de maneira educada. Ela continuou a sorrir  para ele até chegarem ao térreo, embora ele mal percebesse. Somente quando ela  abriu a porta e saiu é que ele levantou a cabeça e observou-a. Não parecia tão  bonita quanto ele imaginara ao vê-la de relance no espelho. Saiu rapidamente do  elevador e passou pela moça sem cerimônia. A passos largos, atravessou o hall  sem sequer cumprimentar o porteiro. Passou pelo portão e deixou-o entreaberto.  Nem percebeu que a jovem havia ficado muito para trás, mas também não se  importava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que colocou o pé na calçada, sentiu o sol forte batendo  em seus olhos. Não sabia que horas eram, mas imaginou que já devia ser perto do  meio-dia. Parou ao lado do portão. Fez menção de pegar os óculos escuros  pendurados na gola da camisa, mas os havia esquecido no apartamento. Preferiu  não voltar buscá-los. Viu a moça sair e fechar o portão, caminhando para o lado  oposto de para onde ele iria. Franziu as sobrancelhas, pegou o maço no bolso da  camisa e tirou de dentro um cigarro e o isqueiro, de uma só vez. Com a mesma  mão, pegou também o maço e recolocou-o no bolso. Acendeu o cigarro, colocou o  isqueiro no bolso esquerdo da calça e começou a caminhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntou as  horas para um senhor que lia as manchetes dos jornais numa banca de revistas.  Descobriu que eram onze e meia. Não podia ser muito diferente - só com o sol a  pino é que era possível entrar alguma luz em meio aos infinitos prédios das ruas  próximas. Agradeceu com um gesto leve da cabeça e seguiu em frente, agora  duplamente apressado. Abaixou a cabeça, apertou o passo e durante a próxima meia  hora preocupou-se apenas em desviar de quem ou o que estivesse exatamente à sua  frente. Nem sequer os motivos que o impeliam a apressar-se passaram por sua  cabeça; por trinta minutos, ele foi apenas uma locomotiva fumegante, avançando  pelas calçadas irregulares enquanto fumava um cigarro atrás do outro,  inconscientemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou ao meio-dia quase ao mesmo tempo em que seu  último cigarro chegava ao fim. Mas não chegara ao seu destino: havia feito a  última curva à esquerda uma esquina depois do correto. Olhou em volta procurando  as referências que tinha, mas não tinha como encontrá-las. Percebeu que não  estava no lugar certo, mas sabia que estava perto de onde devia estar. Soou o  apito do meio-dia. Virou-se para a esquina pela qual havia entrado na rua, e  voltou correndo. Olhou para a esquerda, depois para a direita. Localizou-se.  Correu de volta até onde deveria ter entrado e retomou o caminho certo. Em menos  de um minuto chegou, finalmente, aonde queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, chegou  atrasado. Menos de um minuto atrasado, mas atrasado. Ainda não sabia, então  parou e esperou, enquanto tentava, sem sucesso, desgrudar do corpo a camisa  empapada de suor. Desistiu, mas sem se incomodar. Bastava, pensava ele, estar  ali. Bastaria, tivesse ele chegado a tempo. Mas não chegou. Em pouco tempo,  aquela fração de minuto se mostraria uma eternidade; àquele insignificante  minuto incompleto somaram-se todos os minutos, horas e dias restantes, até o dia  em que não houve mais tempo a ser contado, quando ele finalmente percebeu que  não havia perdido somente um pouco de tempo - havia perdido o tempo, para nunca  mais alcançá-lo. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-117030863237433194?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/117030863237433194/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=117030863237433194&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/117030863237433194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/117030863237433194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/02/lei-da-sopa-vol-i-atrasado.html' title='Lei da sopa, vol. I: &quot;Atrasado&quot;'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-116943642304836015</id><published>2007-01-22T01:26:00.000-02:00</published><updated>2007-01-25T01:40:33.776-02:00</updated><title type='text'>Os cinco ou dez corações</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De um dia para o outro, o pequeno deu de falar tudo direitinho, assim, com começo, meio e fim. Os pais ficaram desesperados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não sei, doutor, não entendo. Até outro dia mesmo ele divagava e dava voltas e falava em círculos, começava contando da escola e terminava falando em sopa de camarão ou tênis fluorescente, mas agora é só três palavras e ponto e pronto, disse o que tinha pra dizer, e a gente não sabe o que fazer, né, aí fica aquele silêncio - disse a mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É - disse o pai, com toda a solenidade com que é possível dizer uma única letra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E a gente não sabe o que fazer, né, então tenta falar alguma coisa, sabe, qualquer coisa, pra ver se ele se anima, mas não sei, ele também não parece desanimado, fala o que tinha pra falar e corre de volta pra rua pra brincar, não sei se ele percebe, é tudo tão estranho, doutor, de um dia para o outro, eu te digo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-De um dia para o outro - repetiu o pai, com ênfase em todas as palavras, e ênfase-e-meia no "de" e no "para".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sempre tão educado, quer dizer, ele sempre foi educado, mas agora além de tudo tão direto, quer dizer, não é que seja formal, por assim dizer, mas não deixa de ser direto, sabe, "obrigado mamãe!" em vez de "puxa vida mamãezinha querida muito obrigadão um dia eu vou te dar um milhãozinho de flores quando eu puder comprar e você sabia que a minhoca tem cinco corações, ou eram dez?!", sabe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso o pai ficou quieto, já que a senhora sua esposa, ao imitar os agora extintos barroquismos do filho, propiciara um espetáculo que, apesar de condizente com o desespero que a situação causava, excedera todos os limites do ridículo, especialmente no agitar dos braços e no bater dos pés, que mais lembraram um chimpanzé tocando bateria do que o expectante gesticular do pequeno. O doutor, percebendo o desconforto do casal - ele por causa dela, ela por não fazer idéia de porque todos estavam em silêncio - aproveitou para dar sua opinião, já que se tratava de um caso banal, de fácil solução:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não há com o que se preocupar. Comprem um cachorro, ou papagaio se morarem em apartamento. Acredito que em apenas alguns dias vocês já se sentirão melhor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-116943642304836015?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/116943642304836015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=116943642304836015&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/116943642304836015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/116943642304836015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/01/os-cinco-ou-dez-coraes.html' title='Os cinco ou dez corações'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38574273.post-116943321361812766</id><published>2007-01-22T00:27:00.000-02:00</published><updated>2007-05-14T17:25:36.731-03:00</updated><title type='text'>As esperas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sol já terminava a descida por entre os prédios, e agora estava exatamente de frente para seu rosto. Arrependeu-se de não ter trazido os óculos escuros, mas quem sairia de casa com óculos escuros àquela hora, naquela cidade cheia de prédios que tapam o sol a toda hora? Mas ali estava, sentado de frente para o sol, no que ele julgava agora ser o único local na cidade inteira onde era possível ser banhado diretamente pela luz do astro-rei. Então achou graça, e por um momento viu-se muito longe dali, lembrando-se das tardes no sítio do avô, quando corria e pulava e caía por horas até ver o sol descendo, quase sumindo, e então cansava e deitava na grama e ficava olhando o sol desaparecer devagarinho atrás das colinas na distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi devolvido à realidade por um tropeção do garçom em sua cadeira; o bar começava a se encher de gente que, recém-encerrada a sexta-feira de trabalho, antecipava o princípio do fim-de-semana ainda carregando seus paletós e gravatas, e os garçons faziam o possível para não acertar um cotovelaço nos clientes mais bem vestidos. Arrumou-se no seu lugar, puxou a cadeira mais para a frente e acendeu um cigarro enquanto tentava distinguir as formas e feições das figuras que caminhavam vindo do lado do sol, que agora já estava prestes a desaparecer mas ainda lhe batia na cara e o impedia de reconhecer quem quer que fosse que viesse pela calçada. Talvez fosse melhor assim, talvez fosse melhor não percebê-la desde longe quando ela chegasse, pois ao vê-la se comportaria como um idiota na tentativa de fazer de conta que não a tinha percebido, na tentativa de fazer de conta que estava distraído e que não se preocupava com a hora em que ela chegasse contanto que chegasse. Mas não seria assim, o sol logo desapareceu em meio ao concreto já mal-iluminado pelos postes, e de repente tudo tomou esse aspecto de hora perdida, de não-é-mais-dia-mas-ainda-não-é-noite, em que os últimos restos de claridade só servem para abafar a luz das lâmpadas que acendem, dando às ruas da cidade esse brilho fosco que passa ao voyeur a impressão de ver sem ser visto, e ao paranóico, a de ser visto sem ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendeu outro cigarro enquanto tentava se adaptar à ausência de luz natural, embora se sentisse à vontade em não enxergar quase nada além das mesas exatamente à sua frente. Apenas se todo o tempo fosse assim, o sol ofuscando-o providencialmente durante o dia e o não-sol o deixando às cegas durante a noite. Mas sabia que logo voltaria a enxergar tudo, e voltaria a ver tudo com a maior claridade possível, sabia que a luz que se lançava sobre tudo o que via não era a luz do sol ou a luz das lâmpadas nos postes, mas sim sua própria luz, seu próprio brilho, essa cabeça iluminista que lançava a razão sobre todos os episódios de sua vida e o transformara desde pequeno nesse monstro racional, nessa aberração intelectual, nessa criatura terrível que transforma as coisas e as pessoas em um amontoado de verdades. Nunca teria o descanso das pequenas mentiras que fazem o dia-a-dia possível, nunca teria um dia-a-dia possível, todos os dias eram impossíveis e assim continuariam sendo; e sendo os dias impossíveis, também o eram as noites, e por isso não dormia há tempos. Apenas perdia a consciência por algumas horas, mas ao levantar no dia seguinte, continuava exausto; e dessa maneira o cansaço de anos e anos se acumulava. Só não se entregava ao descanso eterno, à solução fácil e absoluta, por não ter certeza de que esse descanso fosse eterno, e a solução absoluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se entregava, mas esperava. E agora, esperava duplamente. Foi num momento em que pensava cabisbaixo que ela não apareceria mais que percebeu sua chegada - ela já havia se sentado na cadeira à sua frente, e lhe segurava uma das mãos entre seus dedos longos e finos. Levantou os olhos para vê-la, para reconhecer aquele rosto triste que se importava sem entender, sorriu sem motivo, baixou novamente a vista e após entregar-lhe a outra mão agradeceu em silêncio a breve companhia na espera maior.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38574273-116943321361812766?l=piscalavoisier.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/feeds/116943321361812766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38574273&amp;postID=116943321361812766&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/116943321361812766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38574273/posts/default/116943321361812766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscalavoisier.blogspot.com/2007/01/as-esperas.html' title='As esperas'/><author><name>eluis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06607481130585195780</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://i55.photobucket.com/albums/g124/eluis83/eluis-6040.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
