10.4.07

O príncipe

Era uma vez um príncipe que construiu um castelo de palavras numa planície gélida; durante os eternos invernos inclementes, prosa e poesia o protegiam da intempérie, e nas manhãs e meio-dias em que o frio arrefecia, as varandas davam vista a um deserto branco e vasto. Mas os castelos de palavras só precisam de silêncio para cair, e assim o príncipe vivia em eterno terror, imaginando se este seria o ano em que as caravanas deixariam de passar, condenando seu reduto à lenta e certa erosão sob as tempestades de neve que afugentam os viventes para, semanas, meses ou anos depois, quando a primeira coluna cedesse, transformar-se finalmente num mausoléu de ruínas congeladas.

Então, sempre que um viajante aparecia - coisa que não acontecia com freqüência, já que não só seus domínios ficavam muito longe de qualquer cidade ou vila, como também eram de difícil acesso mesmo para aqueles que conheciam a localização - sempre que um peregrino aparecia, o príncipe aproveitava a oportunidade para repassar seu repertório de palavras, a fim de reafirmar a confiabilidade da fortaleza e impressionar os visitantes para que estes sempre levassem boas notícias às caravanas mercantes que abasteciam o castelo. Não de víveres, é claro, já que o castelo era, como é de se esperar de um castelo, auto-suficiente neste respeito; e nem de artigos de luxo, já que o príncipe, apesar de considerado excêntrico, era na verdade relativamente modesto. O que era necessário, e mesmo indispensável, eram as longas conversas com os mercantes, que, tendo visitado o país e visto de tudo um pouco, traziam sempre novidades a partir das quais o príncipe construiria novas histórias, fosse para expandir uma ala quando possível, fosse para consertar as muralhas quando preciso - o que pode-se e deve-se dizer como sendo "quase sempre".

Mas nem mesmo os viajados mercantes das caravanas da região poderiam sustentar o castelo eternamente, já que um dia as suas histórias também se esgotariam; e além disso, a troca de anedotas e episódios não lhes parecia vantajosa, já que, apesar da generosidade e hospitalidade do príncipe, eles passaram a se perguntar como e porque é que eles, que tinham que abrir caminho em meio às nevascas por dias até chegarem ao castelo, continuavam vendendo o que eles viam como "velharias de pouco valor", enquanto o príncipe, que "nada fazia", ostentava seu majestoso domínio como "um pavão se exibindo num galinheiro". Assim sendo, num certo ano as caravanas simplesmente decidiram que não fariam mais a rota passando por ali, tomando no lugar um outro traçado que evitava a região mais fria; e com o fim da rota comercial da planície, pouco a pouco os peregrinos também deixaram de trilhar o caminho do castelo. Logo não havia mais quem tivesse notícia do príncipe, e nem quem levasse notícias do mundo até ele; até que, após algum tempo, tanto o príncipe quanto o castelo foram simplesmente esquecidos, não por maldade, mas por esquecimento, mesmo.

E assim continuaram as coisas por anos e anos e anos, até que um intrépido explorador, que havia ouvido falar no lendário castelo de palavras ao visitar um vilarejo da região quando ainda era criança, decidiu se aventurar além da fronteira, atravessando a floresta e entrando no deserto de gelo em busca daquela construção magnífica. Seus amigos tentaram impedi-lo, dizendo: "ninguém sabe onde o castelo ficava, você se perderá e morrerá no frio!" Sua esposa tentou proibi-lo, dizendo: "você não pode me abandonar, você se perderá e morrerá no frio!" E seu companheiro de muitas expedições, que não era tão intrépido quanto o intrépido explorador, tentou dissuadi-lo, dizendo: "eu não quero me perder e morrer no frio!" Mas o aventureiro não pôde ser impedido, nem proibido, nem dissuadido; e, quando ele finalmente partiu sozinho rumo à infinita planície congelada, seus ex-amigos, sua ex-esposa e seu ex-companheiro concordaram que ele havia enlouquecido, e pensaram: "que se perca e morra no frio".

Até hoje, o explorador não voltou. Não se sabe ao certo o que aconteceu com ele, embora todos concordem em concordar que ele simplesmente se perdeu e morreu no frio, como era de se esperar; alguns até imaginam, embora poucos admitam, que talvez ele tenha até mesmo encontrado as ruínas do castelo, mas provavelmete se perdeu e morreu de frio antes que conseguisse voltar. No entanto, ainda há as raras almas que acreditam - embora não admitam, sob risco de serem tachados de loucos - que o explorador não só encontrou o castelo, como o encontrou ainda de pé, e que, junto com o príncipe, o está restaurando com relatos de suas extensas e magníficas viagens mundo afora, e que um dia não só este destemido aventureiro retornará para contar sua mais extraordinária história, como também que o castelo do príncipe se tornará tão vasto e grandioso que será possível vê-lo de qualquer lugar do país, e que então viajantes de todas as regiões visitarão o príncipe e aprenderão, também, a construir suas casinhas de palavras.

2.3.07

Lei da sopa, vol. II: "A caixinha de música"

(publicado originalmente em janeiro de 2005)

Chegou em casa ainda cambaleando de felicidade depois do primeiro beijo. Saltitou até o quarto e pegou a caixinha de música. Pulou na cama, deitou-se de bruços, colocou a caixinha no travesseiro, deu corda e abriu devagar a tampinha. Mas, ao contrário do que esperava, não ouviu a musiquinha de que tanto gostava. "E eu, como é que fico?", disse uma voz fina de dentro da caixinha. Mal a última palavra foi dita, a menina fechou rapidamente a tampa, assustada. Um "ai!" abafado ainda pôde ser ouvido.

Ficou parada, boquiaberta, por alguns segundos. Olhou em volta, mas não havia mais ninguém no quarto. Foi até a porta e inclinou-se para o corredor. Estava vazio. Fechou a porta e atravessou o quarto na direção da janela. Também não havia ninguém do lado de fora. Fechou as cortinas e pulou de volta na cama. Pegou a caixinha de música nas mãos e a levou lentamente até perto do ouvido. Não ouviu nada, então sacudiu-a. Além dos esperados chacoalhares dos anéis e brincos ali guardados, ouviu também um grito agudo. Jogou a caixinha no travesseiro e gritou também.

Após um minuto a mãe bateu à porta. Perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu que sim. Esperou mais um minuto até ouvir a mãe se afastar antes de fazer alguma coisa. Decidiu, então, descobrir do que se tratava aquilo tudo. Encheu-se de coragem e abriu a caixinha de música.

"Você não pode fazer isso comigo!", disse a pequena bailarina de porcelana da caixinha, num misto de raiva e choro. "Nem isso, muito menos... muito menos aquilo!"

A menina nunca vira a bailarina fazer outra coisa a não ser girar sobre seu próprio eixo enquanto a musiquinha tocava, e tinha a caixinha de música desde quando era muito bebezinha. Nunca imaginou que aquela pecinha de porcelana tivesse vida, muito menos que falasse, embora já tivesse considerado que tivesse sentimentos. Tentou contemporizar:

"Eu não sabia..."

"Você não sabe nada! Pensa que ele gosta de você?"

Também nunca passara por sua cabeça que a bailarina pudesse conhecer o que se passava fora não só da caixinha, como do quarto e da casa. Aparentemente, não sabia nada mesmo. A voz fina repetiu a pergunta:

"Pensa que ele gosta de você?"

"Eu não... eu acho... eu acho que sim..."

"Você não sabe nada! Ele é igual a todos os outros."

"Hã?..."

"É igual a todos os outros!"

"Os outros... os outros o quê?..."

"Os outros homens!"

"Os outros... todos os outros?..."

"Todos! Não se engane. Eles só querem uma coisa."

"Hã?..."

"Eles só querem uma coisa!"

"Só uma coisa?..."

"Só uma coisa!"

"Só um beijo?..."

"Não! Querem fazer coisas horríveis com você. São uns brutos."

"Mas..."

"Não quero ouvir! Você não pode fazer isso comigo. Você me traiu! Você sabe que eu te amo!"

"Hã?..."

"Eu te amo!"

A menina, que já estava preocupada com a situação, prendeu a respiração por um segundo, olhando para a pequena bailarina. Então, com um gesto brusco, tampou a caixinha, ofegando violentamente. Respirava com tanta dificuldade que nem ouviu um novo "ai!" abafado. Não estava entendendo nada. Esperou alguns minutos até se acalmar, e então foi à procura da mãe para fazer-lhe uma pergunta que, esperava, esclareceria sua visão. Encontrou-a na cozinha, lavando a louça.

"Mãe, quando uma menina diz que ama outra menina, é normal?"

Um prato caiu e estraçalhou-se dentro da pia. O pai, sentado numa poltrona na sala ao lado, lendo o jornal, engasgou com o cachimbo, mas preferiu não se meter. Continuou a leitura, embora com um ouvido na cozinha.

"Filha..."

Não sabia o que dizer.

"Não é normal não, né, mãe?..."

A mãe respirou aliviada. "Não é não, filha." A menina sorriu e correu de volta para o quarto. O pai continuou lendo o jornal.

Chegando no quarto, abriu a caixinha de música. A bailarina estava aos prantos:

"Isso já é demais! Conservadorismo! Preconceito! Discriminação!"

A menina apenas sorriu e tampou de volta a caixinha, para um novo "ai!". Subiu de pé na cama e a guardou no armário, o mais alto que conseguiu. Deitou-se e ficou sonhando com o namoradinho.

Ao mesmo tempo, em outro lugar do bairro, ele também pensava nela, embora não estivesse exatamente sonhando.

16.2.07

Aplastado

Terminou a cerveja e percebeu o sujeito à sua esquerda no balcão olhando torto. Não era dali, é claro que iriam olhar torto. Achou ter visto o sujeito cerrar o punho, não dava para saber, não estava olhando para o sujeito, o sujeito é quem olhava. Na dúvida, não esperou para saber e nem pensou em perguntar. Antes mesmo de olhar de volta arrebentou o queixo do sujeito, uma só e mandou direto pro chão. Não gosto de confusão, mas tem gente que provoca, mesmo.

Daí não tinha mais volta. Outros dois se levantaram nos bancos mais à esquerda, um puxou um canivete. Tudo muito rápido, antes que o barman percebesse a confusão ou recolhesse a garrafa vazia o gargalo quebrado já dava conta dos dois, que recuaram tão depressa quanto levantaram. Esses caras, não valem nada, não agüentam dois minutos, cadê o próximo?

Não demorou para o próximo aparecer, grandalhão, tatuagem pra todo lado, de meter medo, mas meter medo em quem, nem precisou da garrafa quebrada. Duas ou três porradas bem dadas no meio do estômago e o grandalhão já estava grogue, mais rápido, cara, mais rápido, todo esse tamanho e lento desse jeito. Só foi rápido pra cair, isso sim, esse bando de mané, pequeno, grande, é tudo mané, querem briga, é? Só tem mané, tudo igual, só tem mané.

Nisso o barman se levanta atrás do balcão, carregando uma escopeta maior que ele. Coitado, tá tremendo mais que vara verde, vai fazer o quê com isso aí, tu não vai atirar não, eu sei que tu não vai, tu é muito banana pra atirar. Mas o barman não é tão banana assim e atira, só que treme tanto que só acerta de raspão e antes que pegue outro cartucho já levou meia dúzia de joelhaços na cabeça. Só precisou de um pra derrubar, mas filho duma puta, essa jaqueta era quase nova, olha agora, cheia de buraco aqui na manga, um monte de sangue, não vai sair tão fácil, puta que o pariu, toma mais um monte pra aprender, seu filho duma puta. Tudo filho da puta.

Foi então que alguém o acertou em cheio nas costelas. Não viu quem foi, nem de onde veio, só sentiu o baque e dobrou para o lado. Mal terminara de se dobrar e tomou outra do outro lado. Caiu para a frente e vai-saber-lá-quantos caíram em cima. Tomou soco, pontapé e cadeirada até se fundir com o chão. O sangue escorrendo pelo canto da boca, preenchendo as narinas, sufocando os sentidos. Pouco a pouco, os ouvidos também parecem encher, e a vista fica turva. Bando de animais, não dá nem pra tomar uma cerveja em paz. Da próxima vez, vou armar um barraco.

2.2.07

Empate técnico

Já andavam pelo cais há alguns minutos, talvez mais. Um dia e quase uma noite já pesavam em cada passo dos dois, mas agora o cansaço pouco importava. Ela sorria meio sem saber porquê, ele não sabia por que não sorria - embora achasse graça nisso, também. Talvez porque houvesse percebido que acompanhava os passos dela, agora o pé direito na frente, agora o pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, iam lado a lado como que sincronizados, e desde que se apercebera disso, se sentia quase obrigado a manter o ritmo, o que, àquela hora e naquelas condições, exigia bastante tanto de sua coordenação quanto de sua concentração. Riu, mas não sorriu. Ela aproveitou o vão aberto no silêncio:

-Já é tarde pra estarmos por aí, disse ela, sem levantar os olhos do chão.

-Ainda é cedo pra estarmos por aí, respondeu ele, também sem erguer a vista.

Deram mais alguns passos sem perder o compasso. Alguém que, de muito longe, os visse caminhando, poderia imaginar que alguém passava em frente a um interminável espelho, a não ser por apenas de um lado haver um sem-fim de veleiros, além de uma ou outra escuna.

-Podíamos parar pra descansar um pouco, disse ela, olhos ainda abaixados.

-Podíamos continuar andando até o fim, respondeu ele, concentrado nas passadas.

Ela mal continha o sorriso, e ele, o riso. Ainda faltava bastante para chegarem ao extremo sul da marina; uma levantada rápida dos olhos, e mal era possível distinguir as lanchas dos catamarãs ao longe, ainda mais para ela, que não sabia o que era um catamarã, só imaginava que não fosse o mesmo que uma lancha. Estavam agora um pouco além da metade do percurso do cais, talvez? "Minhas pernas já não agüentam mais." Nenhum dos dois se atreveu a dar meia-volta para olhar para trás.

-Tudo bem, se você quiser, paramos um pouco agora, disse ele, displicente.

-Não, por mim está ótimo, vamos até lá e voltamos, disse ela, insistente.

Continuaram daí em silêncio. Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, até deixarem para trás as últimas embarcações. Pé direito, pé esquerdo, pé direito, parada completa. À frente, só o mar. Levantaram a cabeça quase ao mesmo tempo, e olharam para trás, para a extensão da caminhada, antes de olharem um para o outro. O cansaço era quase maior que a empatia. Enquanto recuperavam o fôlego, divertiam-se ao tentar falar qualquer coisa e serem impedidos tanto pela própria respiração trôpega quanto pela falta do que dizer. Foi ela quem primeiro juntou três palavras:

-Você anda depressa.

Ele sorriu. Ela riu.

1.2.07

Lei da sopa, vol. I: "Atrasado"

(publicado originalmente em janeiro de 2005)

Trancou a porta e chamou o elevador. Enquanto esperava, voltou duas vezes até a porta para conferir se a havia trancado. Não retornaria a seu apartamento por algum tempo, embora ainda não soubesse quanto tempo. Viu o elevador passar reto, subindo até a cobertura. Remexeu os bolsos à procura do isqueiro. Destrancou a porta do apartamento e colocou um pé para dentro, enquanto corria os olhos rapidamente pelo interior da antesala. O ruído do elevador novamente em movimento chamou sua atenção. Rapidamente tirou o maço de cigarros do bolso da camisa e o abriu. O isqueiro estava dentro. O elevador chegou. Ele deu um passo atrás, abriu a porta do elevador e segurou-a com o pé enquanto trancava novamente a porta do apartamento e recolocava o maço com o isqueiro no bolso da camisa. Colocou as chaves no bolso direito da calça, deu mais dois passos atrás e apertou o botão do térreo. Lentamente a porta do elevador voltou até se fechar.

Virou-se para a parede oposta à porta, um espelho que começava na altura da cintura e ia até o teto. Olhou dentro de seus próprios olhos no reflexo. Distraiu-se a ponto de não perceber que o elevador parara. Assustou-se quando a porta abriu, mas controlou-se. Levou a mão suavemente ao cabelo, como se o estivesse arrumando. A bonita jovem que entrava sequer percebeu que o havia assustado. Sorriu para ele através do espelho e cumprimentou-o, embora não o conhecesse. Ele virou-se, abaixou a cabeça e respondeu nervosamente, ainda que de maneira educada. Ela continuou a sorrir para ele até chegarem ao térreo, embora ele mal percebesse. Somente quando ela abriu a porta e saiu é que ele levantou a cabeça e observou-a. Não parecia tão bonita quanto ele imaginara ao vê-la de relance no espelho. Saiu rapidamente do elevador e passou pela moça sem cerimônia. A passos largos, atravessou o hall sem sequer cumprimentar o porteiro. Passou pelo portão e deixou-o entreaberto. Nem percebeu que a jovem havia ficado muito para trás, mas também não se importava.

Assim que colocou o pé na calçada, sentiu o sol forte batendo em seus olhos. Não sabia que horas eram, mas imaginou que já devia ser perto do meio-dia. Parou ao lado do portão. Fez menção de pegar os óculos escuros pendurados na gola da camisa, mas os havia esquecido no apartamento. Preferiu não voltar buscá-los. Viu a moça sair e fechar o portão, caminhando para o lado oposto de para onde ele iria. Franziu as sobrancelhas, pegou o maço no bolso da camisa e tirou de dentro um cigarro e o isqueiro, de uma só vez. Com a mesma mão, pegou também o maço e recolocou-o no bolso. Acendeu o cigarro, colocou o isqueiro no bolso esquerdo da calça e começou a caminhar.

Perguntou as horas para um senhor que lia as manchetes dos jornais numa banca de revistas. Descobriu que eram onze e meia. Não podia ser muito diferente - só com o sol a pino é que era possível entrar alguma luz em meio aos infinitos prédios das ruas próximas. Agradeceu com um gesto leve da cabeça e seguiu em frente, agora duplamente apressado. Abaixou a cabeça, apertou o passo e durante a próxima meia hora preocupou-se apenas em desviar de quem ou o que estivesse exatamente à sua frente. Nem sequer os motivos que o impeliam a apressar-se passaram por sua cabeça; por trinta minutos, ele foi apenas uma locomotiva fumegante, avançando pelas calçadas irregulares enquanto fumava um cigarro atrás do outro, inconscientemente.

Chegou ao meio-dia quase ao mesmo tempo em que seu último cigarro chegava ao fim. Mas não chegara ao seu destino: havia feito a última curva à esquerda uma esquina depois do correto. Olhou em volta procurando as referências que tinha, mas não tinha como encontrá-las. Percebeu que não estava no lugar certo, mas sabia que estava perto de onde devia estar. Soou o apito do meio-dia. Virou-se para a esquina pela qual havia entrado na rua, e voltou correndo. Olhou para a esquerda, depois para a direita. Localizou-se. Correu de volta até onde deveria ter entrado e retomou o caminho certo. Em menos de um minuto chegou, finalmente, aonde queria.

Infelizmente, chegou atrasado. Menos de um minuto atrasado, mas atrasado. Ainda não sabia, então parou e esperou, enquanto tentava, sem sucesso, desgrudar do corpo a camisa empapada de suor. Desistiu, mas sem se incomodar. Bastava, pensava ele, estar ali. Bastaria, tivesse ele chegado a tempo. Mas não chegou. Em pouco tempo, aquela fração de minuto se mostraria uma eternidade; àquele insignificante minuto incompleto somaram-se todos os minutos, horas e dias restantes, até o dia em que não houve mais tempo a ser contado, quando ele finalmente percebeu que não havia perdido somente um pouco de tempo - havia perdido o tempo, para nunca mais alcançá-lo.

22.1.07

Os cinco ou dez corações

De um dia para o outro, o pequeno deu de falar tudo direitinho, assim, com começo, meio e fim. Os pais ficaram desesperados:

-Não sei, doutor, não entendo. Até outro dia mesmo ele divagava e dava voltas e falava em círculos, começava contando da escola e terminava falando em sopa de camarão ou tênis fluorescente, mas agora é só três palavras e ponto e pronto, disse o que tinha pra dizer, e a gente não sabe o que fazer, né, aí fica aquele silêncio - disse a mãe.

-É - disse o pai, com toda a solenidade com que é possível dizer uma única letra.

-E a gente não sabe o que fazer, né, então tenta falar alguma coisa, sabe, qualquer coisa, pra ver se ele se anima, mas não sei, ele também não parece desanimado, fala o que tinha pra falar e corre de volta pra rua pra brincar, não sei se ele percebe, é tudo tão estranho, doutor, de um dia para o outro, eu te digo!

-De um dia para o outro - repetiu o pai, com ênfase em todas as palavras, e ênfase-e-meia no "de" e no "para".

-Sempre tão educado, quer dizer, ele sempre foi educado, mas agora além de tudo tão direto, quer dizer, não é que seja formal, por assim dizer, mas não deixa de ser direto, sabe, "obrigado mamãe!" em vez de "puxa vida mamãezinha querida muito obrigadão um dia eu vou te dar um milhãozinho de flores quando eu puder comprar e você sabia que a minhoca tem cinco corações, ou eram dez?!", sabe?

Nisso o pai ficou quieto, já que a senhora sua esposa, ao imitar os agora extintos barroquismos do filho, propiciara um espetáculo que, apesar de condizente com o desespero que a situação causava, excedera todos os limites do ridículo, especialmente no agitar dos braços e no bater dos pés, que mais lembraram um chimpanzé tocando bateria do que o expectante gesticular do pequeno. O doutor, percebendo o desconforto do casal - ele por causa dela, ela por não fazer idéia de porque todos estavam em silêncio - aproveitou para dar sua opinião, já que se tratava de um caso banal, de fácil solução:

-Não há com o que se preocupar. Comprem um cachorro, ou papagaio se morarem em apartamento. Acredito que em apenas alguns dias vocês já se sentirão melhor.

As esperas

O sol já terminava a descida por entre os prédios, e agora estava exatamente de frente para seu rosto. Arrependeu-se de não ter trazido os óculos escuros, mas quem sairia de casa com óculos escuros àquela hora, naquela cidade cheia de prédios que tapam o sol a toda hora? Mas ali estava, sentado de frente para o sol, no que ele julgava agora ser o único local na cidade inteira onde era possível ser banhado diretamente pela luz do astro-rei. Então achou graça, e por um momento viu-se muito longe dali, lembrando-se das tardes no sítio do avô, quando corria e pulava e caía por horas até ver o sol descendo, quase sumindo, e então cansava e deitava na grama e ficava olhando o sol desaparecer devagarinho atrás das colinas na distância.

Foi devolvido à realidade por um tropeção do garçom em sua cadeira; o bar começava a se encher de gente que, recém-encerrada a sexta-feira de trabalho, antecipava o princípio do fim-de-semana ainda carregando seus paletós e gravatas, e os garçons faziam o possível para não acertar um cotovelaço nos clientes mais bem vestidos. Arrumou-se no seu lugar, puxou a cadeira mais para a frente e acendeu um cigarro enquanto tentava distinguir as formas e feições das figuras que caminhavam vindo do lado do sol, que agora já estava prestes a desaparecer mas ainda lhe batia na cara e o impedia de reconhecer quem quer que fosse que viesse pela calçada. Talvez fosse melhor assim, talvez fosse melhor não percebê-la desde longe quando ela chegasse, pois ao vê-la se comportaria como um idiota na tentativa de fazer de conta que não a tinha percebido, na tentativa de fazer de conta que estava distraído e que não se preocupava com a hora em que ela chegasse contanto que chegasse. Mas não seria assim, o sol logo desapareceu em meio ao concreto já mal-iluminado pelos postes, e de repente tudo tomou esse aspecto de hora perdida, de não-é-mais-dia-mas-ainda-não-é-noite, em que os últimos restos de claridade só servem para abafar a luz das lâmpadas que acendem, dando às ruas da cidade esse brilho fosco que passa ao voyeur a impressão de ver sem ser visto, e ao paranóico, a de ser visto sem ver.

Acendeu outro cigarro enquanto tentava se adaptar à ausência de luz natural, embora se sentisse à vontade em não enxergar quase nada além das mesas exatamente à sua frente. Apenas se todo o tempo fosse assim, o sol ofuscando-o providencialmente durante o dia e o não-sol o deixando às cegas durante a noite. Mas sabia que logo voltaria a enxergar tudo, e voltaria a ver tudo com a maior claridade possível, sabia que a luz que se lançava sobre tudo o que via não era a luz do sol ou a luz das lâmpadas nos postes, mas sim sua própria luz, seu próprio brilho, essa cabeça iluminista que lançava a razão sobre todos os episódios de sua vida e o transformara desde pequeno nesse monstro racional, nessa aberração intelectual, nessa criatura terrível que transforma as coisas e as pessoas em um amontoado de verdades. Nunca teria o descanso das pequenas mentiras que fazem o dia-a-dia possível, nunca teria um dia-a-dia possível, todos os dias eram impossíveis e assim continuariam sendo; e sendo os dias impossíveis, também o eram as noites, e por isso não dormia há tempos. Apenas perdia a consciência por algumas horas, mas ao levantar no dia seguinte, continuava exausto; e dessa maneira o cansaço de anos e anos se acumulava. Só não se entregava ao descanso eterno, à solução fácil e absoluta, por não ter certeza de que esse descanso fosse eterno, e a solução absoluta.

Não se entregava, mas esperava. E agora, esperava duplamente. Foi num momento em que pensava cabisbaixo que ela não apareceria mais que percebeu sua chegada - ela já havia se sentado na cadeira à sua frente, e lhe segurava uma das mãos entre seus dedos longos e finos. Levantou os olhos para vê-la, para reconhecer aquele rosto triste que se importava sem entender, sorriu sem motivo, baixou novamente a vista e após entregar-lhe a outra mão agradeceu em silêncio a breve companhia na espera maior.